domingo, novembro 30, 2008

Melancolia

Cai a chuva como sombra
que se abate contra a sombra.
A rua, sem luz que a suporte,

está deserta, o frio atinge os corpos
que, entorpecidos, se deixam
cobrir de um lânguido sentimento
que declina a vida e a condena
a uma dor pálida, subtil, muda.
A cidade está nua, as ruas cegas,

vazias, e as almas, oprimidas,
choram baixinho uma mágoa
a que não sabem dar nome.


AMS

sábado, novembro 15, 2008

...

Ainda que o tempo escorra rápido para
a foz, inunda-me um imenso vagar de viver
quando navegas o teu olhar pelo meu.

AMS

sexta-feira, novembro 14, 2008

...

Há pessoas que quanto mais esticam os galhardetes mais anedóticas se tornam.

AMS

sábado, novembro 01, 2008

A VISITA

Os tempos que correm são de insegurança e receio. As ruas, à noite, estão desertas e a sensação de vivermos numa terra-de-ninguém não se separa de nós. Assaltos, roubos, violência, crime organizado tornam-nos medrosos, desconfiados, sem qualquer espírito de aventura. O outro passou a ser encarado como um potencial inimigo; daí a emergência de nos precavermos de uma qualquer “actuação” que possa pôr em risco o nosso bem-estar e a nossa segurança. Tanta precaução, todavia, tem um efeito nefasto - torna-nos menos autênticos, menos generosos, mais subjugados às fraquezas e debilidades que nos regem. Estamos tão condicionados pelo instinto de autodefesa que já só uma pontinha da boa educação nos impede de correr à paulada todos os que não se apresentam incorporados no rol do politicamente estabelecido.
O caso que passo a narrar, demasiado caricato, passou-se comigo e, estou consciente, em nada estimula o meu ego. Como quase todas as mulheres, de quando em vez - feliz ou infelizmente comigo não se trata de uma psicose já que não me considero uma maluquinha das limpezas - tenho a fantasia de ter uma casa impecavelmente limpa, arrumada, desinfectada, desodorizada, enfim, sem micróbios, ácaros e outros intrusos que tais.
Assim, quando sou atacada pelo império da lixívia, do esfregão e dos líquidos de limpeza, entro numa espécie de estado febril e, cheia de sacos e saquinhos, passo a exterminar tudo o que esteja molecularmente vivo ou inscrito na minha lista de lixo a abater. Tal mania, ainda que periódica, aterroriza de tal forma a minha família que, mal me apanham com aquele ar de empregada de limpeza fora de controlo, saem, devagarinho, só reaparecendo no momento em que a obsessão me arrasta para cima de um sofá: extenuada, cheia de alergias e minimamente lúcida.
Estava, pois, numa dessas sessões sadomasoquistas quando, subitamente, a campainha toca. Sem pensar, inebriada pelo cheiro a pinho silvestre que se infiltrara, meticulosamente, no hall de entrada, abri a porta. O sujeito que tinha à minha frente era em tudo igual aos psicopatas dos filmes de terror: jovem, barba enxovalhada, mastigando uma pastilha elástica pouco privada, olhar cronometrado, frio, meticuloso, aspecto de quem tinha no seu currículo um curso intensivo de kick boxing e um mestrado em assaltos, furtos e violência.
Sem pensar, empurrei-o - a verdade é que, ao mesmo tempo que dizia “venho contar a água”, o fulano já tinha os dois pés no interior do hall - fechando-lhe a porta, assustada, trémula e a precisar de uma terapia de apoio emocional.
Lá fora, o homem vociferava repetidamente : venho contar a água, abra-me a porta. Não abri, mas ainda tive tempo de o ouvir bater, violentamente, com a porta que dá acesso às escadas enquanto gritava: a gaja é maluca.
Talvez seja. Mas que a aparência do dito contador da água me meteu medo, isso não posso negar.
Mais tarde, já calma e sem o efeito hipnótico do pinho silvestre, dei comigo a reflectir: pronto, está feito, feito está. Na realidade, o homem até podia ser um falso contador de água, aliás, tudo no seu aspecto e comportamento indiciava intenções pouco límpidas.
Mas, minha grande parva, e se o rapaz fosse, na verdade, aquilo que dizia ser? Com efeito, tu não lhe pediste identificação, guiaste-te, tão-somente, pelo aspecto e pelo instinto, não é verdade? E se ele se tivesse apresentado de fato e gravata, pasta de executivo, olhar de engenheiro a cheirar a Acqua Di Gio, que farias? Está-se mesmo a ver que o deixarias entrar e, polidamente, indicar-lhe-ias o local do contador. Sabes porquê? Porque ainda que afirmes, convictamente, que não discriminas o parecer do ser, no fundo, para ti e para muitos iguais a ti, o hábito faz o monge, grande idiota.
Vencida pela razão, só me resta circunscrever os meus juízos de valor à intenção de trilhar melhor caminho. Ainda que usando o apoio sempre fiável da prudência.
Depois de lido o texto, leitores mais atentos poderão afirmar: aqui não há coerência nem coesão textuais. Fala-se de insegurança, de limpeza, de contadores da água, de donas de casa assaz intuitivas e medrosas, de juízos de valor ... tudo isto sob o título” A Visita”?!
Idiossincrasias, caríssimo/a leitor.

AMS