domingo, setembro 30, 2007

A Palestra

Sentou-se numa das filas do fim. Tinha chegado um pouco atrasada e tentava, deste modo, evitar a habitual sensação de estar a inalar olhares indiscretos, cheios de censura. Acomodada, respirando alívio - afinal, a palestra ainda não começara - atreveu-se, disfarçadamente, a observar o cenário que a rodeava.
Cerca de uma vintena de pessoas - seria impressão sua ou quase todas se conheciam?! - aguardava, estoicamente, que o orador convidado desse início à sessão. Este, um homem alto, desajeitado e com ar de quem nunca sai à rua sem ser interpelado, agitava-se, freneticamente, entre fios, projectores e… a primeira fila. Receando, talvez, uma sala demasiado desnuda, o distinto professor alojara toda a família nos lugares de honra. Assim - concluiu ela - garantia a presença de seis atentos ouvintes. Bom, era, pelo menos, um homem prevenido. Valeria por dois?
A sala ia-se compondo aos poucos. As pessoas entravam, sentavam-se e cumprimentavam-se. Bolas, aquilo começava a parecer-se demasiado a um daqueles grupos de apoio a alcoólicos anónimos - pensou. Estaria o amável convite impregnado de subtil veneno?!
E o orador que não se decidia a dar sinal de partida! Depois de ter passado mais de vinte minutos à volta do projector de slides - ou talvez por isso - começara a bebericar uma garrafa de água.
Atrás de si, passos apressados, deslocações de ar e de cadeiras e uma voz desolada:
- Já acabou a sessão?
Contendo o riso, tranquilizou um homem com cara de obsessivo-compulsivo - veio a constatar, mais tarde, que era apenas gago, retirando a sábia conclusão de que é errado fazer juízos a priori.
Finalmente, o ilustríssimo - depois de uma apresentação onde nadavam cargos e títulos - tomou a palavra, iniciando um périplo temático assaz motivador. O pior é que, devido, quiçá, a um certo nervoso miudinho, quase se estatela no chão ao tropeçar num dos múltiplos fios que circundavam a mesa. E como um mal nunca vem só, quase de imediato, lança esta pérola - é importante que “estejemos” na posse destes conhecimentos. Ela, honestamente, não estava mas, ao que tudo indiciava, ele também demonstrava uma certa desinformação acerca da conjugação do verbo estar.
A conferência, todavia, ia ganhando um certo interesse e atractivo. Subitamente, um telemóvel faz ecoar, na sala, a música do Yellow Submarine. Esgares dardejantes colaram-se à dona do aparelho que, sem o mínimo pudor atendeu a chamada... em voz baixa. A conferência não podia estar a correr melhor.
Tentando estabelecer uma maior empatia, o douto orador entrega uns inquéritos anónimos à plateia. Irra, agora parecia que estava numa aula. Sem caneta e tudo - como era o hábito de muitos dos seus alunos.
Leu a primeira questão, a segunda, a terceira e a quarta. Pensou, voltou a pensar - o sono, no entretanto, fizera-se anunciar - questionou a vizinha do lado que, amavelmente, lhe emprestara uma esferográfica, e, finalmente - ainda que pouco convencida - foi colocando a respectiva cruz nas várias opções. Começava a acreditar que o convite fora simplesmente um ajuste de contas.
Enquanto o mestre recolhia as folhas, ela matutava sobre uma das questões: Maria, farta de ser o pião das nicas, no emprego, decidira, num belo dia, mimosear o patrão com um emotivo arraial de porrada. Aquele, segundo ela, escravizava-a de trabalho - variado - sempre que uma das colegas faltava - o que acontecia quase todos os dias.

Questão 1 – Maria é vítima da injustiça do patrão?
Questão 2 – Maria não é vítima da injustiça do patrão?

Questão 3 – Concorda com a atitude da Maria?
Questão 4 – Não concorda com a atitude da Maria?

Questão 5 – Empregaria o mesmo método da Maria?
Questão 6 – Não empregaria o mesmo método da Maria?


É evidente que assinalara as perguntas 1, 3 e 6. Se, sempre que faltava uma das empregadas, era a desgraçada que ia substituí-la - não se dando a mínima importância ao facto de se tratar de uma tarefa em tudo distinta daquela para que fora contratada - não tinha a menor dúvida acerca da injustiça exercida sobre a coitada bem como da prepotência do patrão. Quanto à tareia - ainda que não fosse adepta do recurso à violência - conseguia encará-la como consequência nefasta - mas hilariante - de uma gerência tirânica e desenfreada.
Feita uma rápida pesquisa estatística às respostas do auditório, o digníssimo - já não escamoteando um ar de quem se sabe detentor de toda a verdade e sapiência - passou à análise das respostas aos cenários apresentados.
Assim, e segundo ele, Maria agira estupida e agressivamente. Não entendera, a infeliz, que se o patrão a mandava cumprir as mais variadíssimas tarefas era, tão-só, porque confiava nela e a considerava muito inteligente e capaz. Tão inteligente que conseguia substituir qualquer colega independentemente do cargo que essa exercesse. Claro, frisou o honorável, que o QI da Maria seria muito relativo, em tudo inferior ao de qualquer um dos presentes na sala - assistir à palestra era, por si só, sinal de muita inteligência - e, sobretudo, ao seu - passe a imodéstia.
Sentiu esbugalharem-se-lhe os olhos perante tal afirmação. Querem ver que o que o fulano está a insinuar é que o patrão, por ser hierarquicamente superior, era mais inteligente do que a Maria? E que ele, por ser professor-doutor, seria o mais inteligente da sala? Que grande lata e que enormíssimo ego! Seria, então, esta a tese que explicava o porquê das carreiras "brilhantes" de certos políticos? Podiam ser uns refinadíssimos idiotas mas, logo que ascendiam ao poder, o seu quociente de inteligência subia, subia e subia. Detê-lo? Missão impossível. Seria bem mais fácil tentar impedir a maré com as mãos.
A oratória continuava num ritmo cada vez mais patriótico. A certa altura, o pedagogo inquiriu:
- Algum dos senhores sabe, por acaso, em que lugar se posiciona Portugal no que diz respeito à ciência e tecnologia, numa lista de cento e tal países? É uma vergonha, meus senhores, uma vergonha! Sempre que coloco esta questão aos meus alunos - jovens universitários, a nata das natas dos QI, como é óbvio - apontam-me os últimos lugares! Uma vergonha. Temos uma falta de auto-estima que brada aos céus. Não sabemos valorizar-nos! Sempre que os ouço pronunciar tal heresia, apetece-me esbofeteá-los! Esbofeteá-los. Corrê-los à bofetada!
Ela levantou-se e saiu. Estava deveras “grata” à pessoa que a convidara para aquela interessantíssima e impetuosa palestra subordinada ao tema – Agressividade: da Neurobiologia à Cultura.

AMS