sábado, julho 08, 2006

o desencantador

Chega-se a esta idade quando se chega
e deita-se contas à vida. Um homem ha-
bitua-se a tanta coisa, até a este exercício
de lavar a intimidade no tanque sem fundo
da escrita... E assim se vai descarnando
a poesia, de desabafo em desabafo, até
à ruína final. Que parceiros para este
jogo das verdades, para a pontada aguda
entre o riso e o siso. Esbanja um homem
o melhor de si em camas agrestes, em
copos de fel, em mesas de dados
para chegar a este ponto e concluir
que não fez sequer metade do que ameaçou,
que só tem cães vorazes e cobardes
a rondarem-lhe as canelas, que o tão
decantado discurso é apenas o sítio
onde esconde a cara cansada como na infância
numas saias velhas a um canto da casa.
Só os comboios nocturnos a apitarem
pontuais lá em baixo se constituem como
prova de que existe outra realidade
para além do azedume das palavras perfiladas.
Nem sequer tenho a coragem de chegar ao osso.
Porque dói. Porque deve haver uma ética,
um fingimento nisto tudo... Mas às vezes
o fingimento maior é ser capaz de não fingir,
de cair na noite sem alarido e acordar expurgado
de toda a merda sitiante, do fumo e do escârnio.
Peço desculpa do incómodo e, já agora,
da humildade com que me desculpo. Não há
desespero que valha um bom poema. Retratos de
mim faço-os para consumo próprio e alegro-me
quando fico por aqui.


José Jorge Letria
O Desencantador de Serpentes