quarta-feira, novembro 15, 2006

Para quem partiu

Só hoje soube da tua “partida”. Numa conversa informal, a notícia apanhou-me assim mesmo - “Sabes, morreu o… “. Não reagi. Não comentei. Creio que nem percebi bem o que estavam a dizer-me. O meu amigo de infância? Era lá possível…! Os amigos de infância são imortais. Sempre tivémos essa noção de imortalidade quando éramos crianças. Os bons nunca morrem! Os bons ganham sempre! – dizias, veementemente, convencido dessa falsa premissa.
Como estavas enganado…
Não consigo chorar. Apenas lembrar com saudade as nossas brincadeiras, as nossas zangas, as nossas tropelias. Tu eras quase sempre o Robin dos Bosques e eu… eu era a miudita franzina de tranças e laçarotes, companheira de sonhos e aventuras.
Recordas quando insisti contigo para que me pintasses as unhas com aquele verniz vermelho vivo que pertencia à tua tia e que eu cobiçava há tanto tempo? Mulheres – pensaste. Mas fizeste-me a vontade. Só que o Robin dos Bosques era bom na defesa dos fracos e oprimidos, manejava, habilmente, o arco e as flechas, mas, para desgraça tua e minha, era um desastrado a pintar as unhas a meninas mimadas e vaidosas. Resultado: um frasco de verniz entornado, deixando a marca do nosso delito sobre uma colcha alvíssima. E lá ficaram os dois criminosos de castigo, sem sobremesa, mas cúmplices, solidários e… de olhares gulosos, seguindo, ávidamente,o percurso de cada fatia de bolo... que ia desaparecendo na boca dos outros. Resistimos estoicamente, sabe-se lá como, embora, em abono da verdade, eu tivesse que ouvir, durante um certo tempo, as queixas de um Robin dos Bosques protector dos pobres e indefesos, mas assaz apreciador de bolo de chocolate.
Depois, bem, depois… crescemos. Tu, mais velho, começaste a trocar a tua lady Marian por outras damas que, ainda que não apreciassem as aventuras do nobre Robin dos Bosques, te aliciavam com outro tipo de aventuras – talvez mais perigosas – mas bem mais sedutoras.
Os anos passaram. Eu também cresci. Víamo-nos de tempos a tempos e ríamos, felizes, em memória das quedas, dos arranhões, das zangas e de uma infância que não mais voltaria.
Hoje, disseram-me que tinhas morrido. Não acreditei. Não acredito.
Um amigo que possuía – mas por que motivo estou eu a empregar o passado?! – que “possui” um coração grande e generoso, não podia ir embora sem se despedir da sua companheira de folguedos com um “até sempre”. A menos, sim, a menos que, com um coração tão infinitamente grande, tão incondicionalmente generoso e grato, ele tenha saltado do teu peito e ande por aí, louco de alegria, a beijar toda a gente.

AMS