segunda-feira, março 13, 2006

Asfixia

É às portas do nada que se posta a mais nutrida guarda.
Talvez porque a condição do vazio seja demasiado vergonhosa para ser divulgada.

Francis Scott Fritzgerald

Não chega. Nunca chega. A história nunca acaba. É tão simples quanto isso. As perguntas rasteiam-me. Sobram pormenores. Faltam pormenores. São demasiadas dúvidas. É demasiado o preço que pago para que a vida faça por mim o que nunca fiz por ela. Por isso hesito com frequência. Cada um conta o que tem. Ou não tem. Tenho de ser justa: eu conto aquilo de que me pretendo libertar.
Quando começo a escrever, é já o final. E eu ando à procura do princípio. Daí, os nós que se sobrepõem e me confundem.
Talvez tenha de ser assim. Talvez eu deva aceitar que as histórias só se podem contar subindo a corrente da vida. Atravessando milhares de outras histórias. Milhares de acasos. Até chegar a mim. À minha história.
Sempre esta lógica impenetrável das coisas! Esta sensação de nunca acabar e, simultaneamente, de nunca ter começado.
Estás enclausurada em cepticismo! Cansa-te a vida! - dizem.
Têm razão. Estou em guerra comigo. Para que serve perder tempo a escrever as mentiras que me contaram? As meias verdades que ocultei? As verdades que aprendi? O fim é sempre o mesmo. Somos quem nos contam que somos. A minha história teria um bom final se fosse verdade. Assim, como não sobrevive ao real, cresce a desmesura do afastamento a uma vida que não reconhece. Nem me reconhece.
Ninguém estanca a dor à minha escrita, porque não digo que me dói.

AMS