quarta-feira, novembro 15, 2006

O papagaio de papel

Pesa-me a minha insignificância. Dói-me esta incapacidade de entender a vida, as pessoas, de me entender. Parece que nunca se chega a lado nenhum e que o desfecho é por demais previsível. Podemos deixar a imaginação galopar, é certo, mas a realidade espera por nós ao dobrar de uma qualquer esquina. Só paredes e muros que nos prendem à modorra de apressados gestos e recalcadas palavras. Onde encontrar a saída certa? Como elevar a banalidade do que somos à grandeza do que gostaríamos de ser?
Acreditamos - presunção ou ingenuidade? - que uma história diferente nos foi destinada. Na nossa história, o papagaio de papel nunca se rompe, o cordel é tão comprido que o eleva às estrelas e, assim, tocamos o céu. E somos livres. E podemos escolher o nosso destino. E as esperas não assustam, porque a esperança é legítima.
Porém, a realidade é a morte na lentidão dos dias. É chão de pedras e pedras. E o cordel acaba sempre por desperdiçar o instante, emaranha-se, enrola-se no nosso descuido. Todo o entusiasmo se afoga na decepção do nada. O papagaio de papel respirou um voo fugaz. Viveu - será que viveu? - um segundo de ousadia. De ilusão. As estrelas estavam longe de mais. Elas atraiçoaram o seu voo. Ou foi a ânsia, paradoxalmente aliada ao cansaço, que atraiçoou o sonho?! Como dói ver a vida passar de qualquer jeito! Como pode ser seco o seu trajecto! E como, não esperando nada, baixando, covardemente, os braços, ajudamos a que seja mais seco ainda!
Quem somos, afinal? Seres cheios de dúvidas e contradições. O cordel, guiado por mãos pouco atentas, prendeu-se, o papagaio rompeu-se e caiu. Falhámos. Essa é a realidade do momento. Mas não podemos ficar prisioneiros de um momento. O tempo é a união de milhares e milhares de momentos. Há que lançar outro papagaio - mais ágil, mais leve, mais persistente - tentando, as vezes que forem necessárias, elevá-lo o mais alto possível, ao invés de lamentar a nossa imperfeição, a nossa pequenez. Talvez que, a cada tentativa fracassada, o longe das estrelas vá encurtando e, mesmo sem lhes tocar, desvendemos a essência do seu brilho. A verdade escondida em cada um de nós.

AMS