quinta-feira, dezembro 21, 2006

Felizes os pobres de espírito

A senhoreca seguia à minha frente. Andar altivo, submerso de prepotência, projectava novo-riquismo e presunção em cada passo. Toda aquela imponência emanava um não sei quê de fictício, burlesco, atarracada mentalidade.
Em abono da verdade, tal “caniche” saltitante teria passado a mil léguas submarinas do meu olhar, não fosse o alarido provocado pelos sacos e saquinhos que ela agarrava, preciosamente, com as suas “maozinhas” gorduchas - presumo que escorregadias - e carregadas de anéis. Bastou-me subir uns centímetros com o olhar e… eis as pulseiras e pulseirinhas, ouro a farnel, para gozo da proprietária e de quantos, como eu, se deleitavam com a joalharia exposta.
E a dita senhora não teria o direito de se apresentar como quisesse? Ainda que parecesse uma árvore de natal carregadinha de enfeites multicolores? - perguntará, acertadamente, o leitor. É claro que sim. Obviamente que cada um tem o direito de fazer o que lhe der na real gana, pavoneando-se, em Santa Catarina, no traje que mais lhe aprouver. Só que o grotesco era de tal maneira chamejante, apelativo, o verniz de tal modo estaladiço que eu - mea culpa - não conseguia parar de rir cá por dentro e, volto a penitenciar-me, espraiar a imaginação em cenas mais ou menos caricatas, tendo como protagonista a balofa lady.
A certa altura - puro acaso? - ambas parámos em frente à montra de uma sapataria. Não resisti. De soslaio, alonguei o canto do olho em direcção ao escaparate ambulante. Certinho. A pintura, o ouro - ou fantasia - o decote mostrando uns seios dignos das melhores amas do renascimento, enfim, todo o conjunto era um quadro por demais bizarro, por demais surrealista.
A história teria terminado aqui. Aquele clone de uma qualquer Lili Caneças deixara de me despertar curiosidade. Assim, passei a observar os sapatos coloridos - com preços bem menos coloridos - recomendados para a estação primavera/verão.
Subitamente, ouço alguém dizer em tom lamuriante: - “Dê-me uma esmolinha…”. Era um mendigo sentado numa das esquinas da montra da sapataria. Um entre tantos, daqueles em quem já não reparamos, umas vezes por medo de sermos enganados, outras… porque dá mais jeito fingir que não vemos, enrodilhados que estamos em obrigações, normas, compadrios e merdinhas desse género. Não nego - sei-o por experiência própria - que alguns deles são “poseurs” profissionais, actores de prodigioso talento, expondo uma miséria artificial. A outra, a verdadeira miséria, a que pertence a todos nós e é fruto de uma sociedadade que se habituou a parir indigentes, porque não sabe fazer outra coisa, bem, essa está oculta ou, pelo menos, disfarçada.
A melopeia continuava: - “Dê-me uma esmolinha, minha rica senhora…”. Eu começava a sentir-me incomodada e sem saber bem o que fazer: - “Dou… não dou… e se é tudo treta… e se não é… “ - quando uma voz estridente, irritantemente aguda, atirou estas pérolas: - “ Vá trabalhar! A vida custa a todos. Cambada de malandros!”.
O verniz tinha estalado de uma ponta à outra. Uma aragem sórdida, mesquinha, bafienta tinha, de repente, invadido o espaço onde me encontrava. Aquelas palavras vexantes tinham, sabiamente, saído da boquinha espremidinha do “meu caniche”. Olhei-a, usando o mesmo ar de desdém com que ela amarfanhava os outros. Não disse nada, mas pensei: - “ Ouve lá, ó sua pindérica, tu até podes não dar esmola. Provavelmente, eu também não iria dar - já céptica q.b., embrulhada num marasmo de mentiras e verdades… - mas era preciso humilhar, madame?”
O mendigo - há quem defenda que a palavra apropriada é vagabundo… - mirou a dona, remirou-a e, tirando uma moeda do boné que jazia sobre os joelhos, estendeu-lha, dizendo: -“Tem razão, minha senhora, tem razão… A vida custa a todos. Tome, é pouco mas é de boa vontade… Aceite… a pobreza partilhada pesa menos.
Felizes os pobres de espírito?!

AMS