sábado, junho 10, 2006

busco a luz assumindo a fatalidade da perda

Lamento ter-te desiludido. Lamento não ter correspondido à imagem que inventaste para mim. Os espelhos podem distorcer imagens. Sensações. Promessas. As teias do coração tecem-se nos labirintos do imponderável.
O segredo do amor é não amar. Não ouses amar-me! – dizias. Amar é proibido. É loucura.
Pobre de mim. Prometi-te que não deixaria o coração interferir. Que, se ele ousasse caminhar rumo ao amor, eu teria tempo de fazer um desvio. Desculpa ter-te enganado. Ter-me enganado. O bater ensurdecedor do coração impediu-me de ouvir chegar o amor e, sem saber como, dei-me conta de que a tua imagem vivia comigo. Sem eu a chamar. Que estranho! Só em inesperados momentos se vive a plenitude. Como brisa em dias de incêndio.
Afinal, quando começa a tua história a fundir-se na minha? Talvez as histórias se limitem a seguir a vida que vai surgindo… não sei…
Tentei mandá-la embora, mas ela parecia não ter pressa de partir para onde quer que fosse. Decidira criar, a seu bel-prazer, um pacto que violaria mal eu acreditasse na sua existência.
Por quanto tempo tencionas permanecer em mim? – perguntava-lhe. Não é razoável ficares. E ela acabava sempre por me responder – Buscaste a luz assumindo a fatalidade da perda. Partirei quando te sentires segura da minha existência. Separarmo-nos será inevitável. Mas não há pressa. Tudo pode acontecer e quase nada acontece. Há muito tempo a esperar-nos. E, quando eu partir, tu gritarás – Leva-me contigo, peço-te. Mas eu acabo sempre por ir, sabes? É forçoso acabar uma história e começar outra. Assim me alimento. Claro que não te abandonarei por maldade. Sou assim por natureza. Um fluir contínuo que, aos poucos, se evapora. E lá longe, num horizonte distante, talvez, um dia, encontres na alma de alguém um pouco da minha alma…

Ainda não encontrei.
O segredo do amor é não amar – disseste. Só não me disseste que o amor pode dar-se, mas não se pode pedir.
E, deste modo, fico crescendo por degraus do esquecimento. Desembocando nas praças vazias. Imaginando criar jardins nos cantos envelhecidos dos dias.

AMS