terça-feira, junho 06, 2006

Que seca!



Se há coisa que eu não suporto

É levantar-me ao toque do despertador,
Que horror,
Entrar no emprego a hora certa,
Trabalhar numa rotina condenada
A objectivos definidos
Por manuais mais ou menos tremidos.
Que seca!

Se há coisas que eu não suporto,
São bibelots de plástico, flores artificiais
Que nos impingem, dizendo ser funcionais,
Mas que demonstram gostos
Pouco naturais.

Se há coisa que eu não suporto,
É o rastejar camuflado dos camaleões,
Em surdina,
Como quem não atina o alvo a alcançar,
A aniquilar,
Com esgares inocentes
De almas penitentes,
Inconsequentes,
De lobos que não parecem ferozes,
Mas que provocam danos atrozes.

Se há coisas que eu não suporto,
São galãs de olhares adocicados,
Meio apimentados,
Abraços fraternais,
Frívolos piropos carinhosos,
Palavras meladas,
Que adoram consolar desconsoladas
Só para entrar na lista dos famosos
Homens de práticas bem intencionadas,
Com vontade de comer tudo
O que é certo, o que é incerto,
O que está longe, o que está perto.

Se há coisas que eu não suporto,
São as regras competitivas do mercado
Exibidas em cartazes cheios de sol,
Fabricados para exportação e exposição
Das pessoas que sorriem para dentro,
Neste país cremado de cinzento.

Se há coisa que eu não suporto,
É esta mania que eu tenho de fazer versos
Mal-humorados, sensaborões,
Chatos, chatérrimos,
De adjectivadas inspirações,
Naftalinadas motivações,
Para embalar consciências estropiadas,
Vulgo reformadas,
Neste jardim à beira-mar plantado,
Onde impera nada nem ninguém,
Como é da praxe, como convém!

Que seca!

AMS