quarta-feira, fevereiro 21, 2007

(Ir)realidades

O silêncio da sala era apenas quebrado pelo bater compassado do relógio de parede. Um relógio austero que assinalava, há muitas gerações, o deslizar do tempo. Vários cadeirões e sofás de veludo, reposteiros de uma verticalidade severa, quadros a óleo, estantes carregadas de livros e uma escrivaninha eram presenças que, ao longo dos anos, tinham adquirido a paciência de quem dispõe de todo o tempo do mundo. Sobre a escrivaninha repousavam fotografias e uma esguia jarra com uma rosa. Uma pequena moldura, no entanto, parecia ser o centro da sala. Era o rosto luminoso de uma mulher jovem, olhar intenso reclamando vida, sorriso aberto e feliz. Um rosto, detentor da imortalidade, desafiando o silêncio espesso e duro da morte.
As pancadas cansadas de uma bengala amorteceram, por momentos, o pêndulo enclausurado do velho relógio. Mas, de imediato, o tempo, esquivo e flutuante, recuperou o seu poder. Um vulto carregado de memórias curvou-se sobre as fotografias, transportando, delicadamente, para perto de uns olhos plissados de rugas a moldura com o rosto da mulher de sorriso ingastável. Encontro com a solidão e saudade deixadas pela morte? Fusão de sentires perpetuados no deslumbramento do desejo do que nunca mais poderá ser? Talvez o eco do passado emergindo real no presente. O ontem e o hoje entrelaçados.
Uma mão trémula e comovida colocou, de novo, a fotografia, no centro do crepúsculo da sala, arrastando-se, de seguida, para um dos sofás. O silêncio e uma luz cada vez mais débil coavam-se numa semi-obscuridade. Aos poucos, as mãos abandonaram-se à inércia do sono enquanto os olhos, embalados pelo movimento transitório do pêndulo e pelas nostalgias da memória - as recordações adormecidas não doem - se deixavam conduzir até um lugar sem tempo e sem idade.
O sorriso da mulher da fotografia velava.

AMS